sábado, maio 17, 2014

Solar

O Sol e eu conversamos hoje, sentados à beira da piscina. Uma conversa suave e impregnada de sentimento. Prosa de dois grandes amigos que há tempos não se viam. Falei sobre minha paixonite pela escuridão da noite e paranóias adolescentes. Ele riu ternamente, acarinhou-me a cabeça e disse pra eu ter calma. Chorei em silêncio enquanto ele me contava sobre a fugacidade da vida e da desconsideração para com o amor nos dias atuais. Depois almoçamos e fizemos a sesta juntos. Calados e em paz, como convêm a dois amigos. Ele dormiu no meu coração, deixou um quarto bem quentinho lá pra mim. "Tava tudo bagunçado, algumas salas estavam frias, outras destruidas. Mas eu dei uma organizada, meu amigo. Fique bem, a escuridão pode ser destruidora.". Disse ele, indo embora, rumo ao horizonte...

Reticências

A noite assobiava com um chuvisco fino a rua. Fiquei parado em frente a casa dela, entre ansioso e pensativo. Ela vem. As vezes é bom ser absorvido por essa sensação de não conseguir verbalizar o que se sente. Como se não fosse possível botar em palavras a beleza dela naquele momento. Tão linda e tão simples! Revisei todo seu rosto com meus olhos, beijei a face levemente e fui conduzindo o carro. Chegamos a praça do canavial, a qual tinha um mirante para o mar. O céu nos presenteava com algumas estrelas e a chuva já parara. Acarinhei seus cabelos com uma suavidade de escultor:
- Hoje eu sou todo curiosidade.
Ela sorriu, baixou a cabeça um pouco desconcertada:
- Nós vivemos entre feras!
- O leão é o meu animal favorito.
- Acho que o meu é o guaxinim.- e deita a cabeça no meu ombro.- Por que estás curioso?
- Teus lábios reticentes...
Ela sorri novamente, turva. Mira meu rosto, me consome. Não lembro muito bem onde estávamos, se no carro ou fora dele, quando o beijo aconteceu, mas eu guardei aquela noite, aquele assobio, e aquele céu de estrelas no bolso, perdido por entre florestas e rugidos indecifráveis...

Alguma Coisa

Ele: Penso que do jeito que o mundo tá é até difícil você acreditar nas coisas falo. Pareço cafajeste...
Ela: Não te minto. Tuas palavras são piegas.
Ele: Acreditas que eu sempre tive medo de parecer ridículo? O pior é que nem realmente entendo minhas sensações.
Ela: Sensações não devem ser entendidas. Cadê teu coração?
Ele: Esqueci por um tempo. - passa a mão no rosto dela e dá um sorriso discreto. - Tua imagem é tão suave aos meus olhos...
Ela: Ontem escutei o "Abbey Road" dos Beatles, todo, tomando um vinho. Lembrei de ti...
Ele: Nem parece que te conheço há duas semanas! Gosto de Beatles. E de Led Zeppelin também. Ontem escutei BB King.
Ela: Acreditas que pode haver atração e um despertar de um sentimento com tão pouco contato? Com essa nossa parca troca de idéias?
Ele: Tuas indagações me fascinam... Por que não? Basta a carícia que fazes dentro de mim. Na verdade, desisti de tentar compreender.
Ela: Quer mais um pouco de vinho? - e dá um gole no gargalo da garrafa.
Ele a mira por uns instantes. Viaja por várias paisagens naquele olhar, apaixonado, num desespero contido dos sentimentos avassaladores.
Como numa surpresa, dessas pegadinhas que o cotidiano solta vez por outra durante a vida, "Something" começa a tocar ao fundo.
Ela sorri discretamente, fecha os olhos, ergue levemente o vinho e deixa o cabelo dançar sobre a sua face. A música reverbera na mente dele: "...something in the way she moves...".
Ele é absorvido por um frenesi tão poético e puro, impregnado de uma admiração apaixonada. Fica estático, saboreando cada gole daquela imagem.
Ele: Preciso te falar uma coisa, mas não sei se devo.
Ela: Fala.
Ele: Eu não deveria. - toca as mãos dela, suavemente...
Ela: Fala. Simplesmente fala.
Ele: Eu te acho sensacional!
Ela sorri e a face cora levemente. Ele a encara tão terna e profundamente que palavras mais complexas, discursos mais elaborados, não são necessários. Ela entende.
O outro: Eita, que o banheiro está com uma fila imensa!
Eles se olham, disfarçam o olhar e tentam dar vazão àquela volúpia que ainda atravessava seus corpos.
Ele: Bom, vou ter que ir, tenho um aniversário ainda. Prazer ter encontrado vocês dois. - ainda a encara com uma doçura clandestina. - Tchau...
E vai embora. Deixa nela um olhar reticente, de uma distância musical e misteriosa. Ela sorri cinzenta e beija o rosto do outro. A música a tocar ao fundo já era outra, porém aquela conversa atravessava todo o seu universo.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

Das Aves

A galinha pica a linha
Alinha o ninho na pista
Beija galinhos e cisca
Comendo devagarinho milhos.

terça-feira, janeiro 22, 2013


Flui de mim ventos e tempestades serenos
E de um romantismo singelo, quase que leve ao meu tato,
Sinto de ti a suavidade dos carinhos e dos abraços
Que trago na memória como um simples relicário.

Mestres de meus sonhos são esses retratos
Colados nas lembranças dos beijos e sorrisos.
Resplandecendo em meu ser mais antigo,
Tua luz que brilha nos meus sentidos.

Como criança, a divagar num mundo colorido,
Mergulho em nós, no nosso paraíso metafísico.

Incertezas me consomem nessa viagem fantástica.
Tristonho ou alegre? Não mais importa.

Guardo, bem leve, teu rosto e teu olhar
Como terapia, quase que magia, que me sustenta
Nessa vida e me guarda.

E é a cada dose de ti que a certeza surge mais bela em mim,
Como se, por um instante de epifania,
Eu pudesse compreender a total explicação da vida.

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Amor de Gente

As viagens que a mente realiza, incógnitas, dispersas no espaço
Levam-me a devaneios grandiosos e liberdades várias.
São assim, meus pensamentos...

Pouco prevejo dos sentimentos.
Mas sinto imenso. E frequente. Amor de gente
Amor, amor, amor...

Embarco em cruzeiros, jornadas lancinantes
De um conhecimento peculiar, experiências
E aprendizado distinto.

Fora de mim. Converso comigo. 
Espalho-me no ar que circunda o mundo
Dou voltas em terras desconhecidas
Passeio em ilhas suspensas, encantadas
E retorno...
Chego ao meu lar maior.
Sinto imenso e frequente, amor de gente
Amor, amor, amor...

segunda-feira, novembro 12, 2012

Aquela Noite


E dos novos ideais que alcancei naquela noite
Foi-me a tua alegria o maior de todos.
Nada faltou-me. Eu posto em rostos
De sorrisos vários e gargalhar saltimbanco.
Tendo em minha mão teu manto,
Com o olhar te lambia, acariciando teus arcanos.
Solta no ar, leve em panos, eras nudez total
A dançar em meus desenganos.
Eu, febril e trêmulo, te cantava nos braços
Refazia-te em espetáculo triunfal.
Nossa dança primitiva, um cantar gregoriano.
Eras cadencia musical, fantasia traduzida.
E eu era o rei atemporal,
Reinando em ti, minha terra mais linda e enlouquecida.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Percorri árduos e tortuosos caminhos 
Mil veredas abrem-se em minha alma
Encontro-me sozinho, examinando cada passagem
E a vida mostra-se suntuosa aos meus sentidos.

Sei que nada me satisfaria nessas opções várias
Pois trago cá comigo a certeza da alegria e dos sorrisos.
Pode ser que até encontre espinhos e embaraços
Mas independe o destino, até onde permaneço.

Agarro-me ao meu vício da vida e tudo me é esplêndido.
Tenho um profundo apreço por ser louco,
meu mundo é colorido e diverso.
O meu viver o mais sincero delírio,
a minha loucura o meu melhor endereço.

sábado, outubro 13, 2012


Hoje eu trouxe teu sorriso comigo
Era sol de domingo e precisava de um abrigo
Desses que chamamos de lar, às vezes,
Um lugar familiar.

Busquei-o em um lugar antigo. 
Rememorei bastante, e com pesar, momentos
Das músicas de outrora e compreendi
O mistério dos sentimentos.

Interroguei-me, pensativo, todos acontecimentos
E logo parei, calei. Algumas lembranças merecem
Somente a contemplação, observar, admirar...

Hoje foi um dia comum, eu precisava te morar.
Morei na tua lembrança mais presente que tive.
Doçura tua me abraça, me acalenta, 
embala-me nesse momento.
E eu, anestesiado, reflito sutilmente 
O teu sorriso, que hoje eu trouxe comigo.

Passeio


Quantos portos ainda hei de visitar?
Minha mente sempre levando-me a navegar.
Tantos mares e continentes.
Maiores e diversos que todos os existentes.



Imaginário de poeta, vulgo louco.
Apenas sorrio, inebriado, enquanto meus olhos,
cálidos, escondem tantas maravilhas,
tempestades, brisas e paisagens fantásticas.

Hoje o dia é meu, as ruas são minhas,
abraço todas, beijo ventanias.
Faço do impossível o real.
Flutuo, pairo sobre o luar que acaricia minha pele.

E, nesse passeio, sou todo o mundo,
sou inteiro. Metades surreais que compreendo
até quando ouço apenas ventos.
Tudo é lindo! E o mundo, um catavento.
A vida que segue e que se vive
Cheia de mistérios e segredos
Prediz abismos e degredos
Ou enaltece os sonhos que outrora tive.

Nem sempre vivo o que esclareço
Mas quero sempre o que bendiz
Segredos, devaneios ou mistérios
Nunca soube, só vivi.

domingo, junho 17, 2012

Mágicas

Quem poderá palavrear a magia que emana das mulheres que cruzam meu caminho?
Paixões diversas, lutos passageiros, amores repentinos.
Elas cruzam meu caminho e palpitam meu ser em pequenos desatinos.


Às vezes, é só um sorriso que me fascina e me embala em delírios vãos.
Outras, é a música dos cabelos, dos movimentos, das curvas tácitas sob as roupas desataviadas.
Vezes há que a poesia me é tão intensa que, feito louco, sou levado a flutuar em grandes devaneios de minha mente libidinosa.


Um riso que eu possa beijar.
Uma voz suave, macia aos meus ouvidos. Aroma dos olhos. Tato das coxas. 
Apenas o observar de um mágico caminhar.
E cantar meus versos nesses detalhes voluptuosos a hipnotizarem meu desorganizado raciocínio.


Alucinado, sem siso, saboreio mil mulheres em meus pensamentos perdidos:
A modelo de cabelos.
A modelo de pés.
A modelo de olhar atrás dos óculos.
A modelo de sorriso com buraquinho na bochecha.


São tantas! E tão diferentes, que vontade imensa me domina e navego em projeções várias
Gozos infinitos, somente com meu lúbrico imaginário.


E guardo na memória o gosto indizível dos lábios, do sexo e do amor... eternos e momentâneos...
... das mulheres que cruzam o meu caminho. 

quarta-feira, junho 06, 2012

Trilha de Lígia


“Ôooii!!!”, disse-me ela, cutucando-me pelas costas.
Estava a contemplar o sol matinal infiltrado nas folhas das árvores que adornam o parque laje quando fui surpreendido por Lígia.
“Lígia! Que surpresa boa!”
“  Acabei de chegar. Tava procurando por uma mesa quando te avistei, de longe. Nem acreditei! Você não é muito de vir tomar café aqui.”
“ Bom, tenho tentado inserir hábitos mais saudáveis na minha rotina. Aquela vida de notívago estava me destruindo. E, veja só, no meu primeiro domingo aqui no parque e já te encontrei. Vamos tomar café juntos? Ou tá acompanhada?”
“Não, não. Vim sozinha mesmo. Convidei uma amiga mas ela não quis. Graças a Deus te encontrei. Odeio comer sozinha!”, disse ela, sorrindo lindamente.
Lígia tinha sido minha colega de turma em um curso intensivo de espanhol que acabara há 4 meses. Em nossa primeira conversa concluí que minha amizade com ela seria algo perigoso para nós dois. A sintonia tanto intelectual quanto física era inevitável, magnética, uma das melhores sensações que já senti com uma mulher.  Puxei a cadeira para ela sentar. Durante o ato pude contemplar, disfarçadamente, o corpo de Lígia movendo-se, vestido com aquela roupa que as mulheres costumam usar para praticar atividades físicas. Linda, linda.
“Saudade, sabia?”, disse eu, com uma carícia em seu ombro.
“Ah, Tarcísio, você sumiu. Não sai mais com o pessoal. Eu, quando não to atarefada, procuro sempre ir.”
Pessoal, que ela se referia, era uns colegas nossos. Turma que formamos durante o curso. No início eu gostava de sair com eles, noites boêmias de conversas inúteis e assuntos superficiais. Minha motivação maior era saber que Lígia estaria presente.
“Tenho estado meio enrolado no trabalho ultimamente, além do mais, venho refletindo muito sobre minha vida. Mas isso não vem ao caso. O que você acha de fazermos a trilha?”
“Vim justamente pronta para isso!”, disse ela, animada.
Durante a caminhada, deixo Lígia ir na minha frente com a desculpa de que eu não conhecia bem o caminho. Doce mentira. Enquanto ela subia a trilha, eu, com um sorriso cínico, ia contemplando as nuances de seus movimentos. As gotas de suor que escorriam poeticamente pelo seu rosto, depois pelo pescoço, chegando por dentro da blusa decotada até os seios, que eu já imaginara diversas vezes em minha mente  devassa numa tentativa de obter respostas daquele, ainda, desconhecido mundo. Mamilos rosados? Cor da pele? Aureola grande ou pequena? Redondos ou elípticos? Qual o tamanho exato? Será que caberiam inteiros na minha boca? E as nádegas? Duas metades de uma perfeição complexa. Pareciam dançar para mim, me chamando: “Tarcísio, vem cá, estamos precisando de carinho. Vem nos beijar. Dá-nos mordidinhas!”. Flutuava nesses devaneios quando chegamos ao topo do mirante. De lá dava para admirar uma boa parte da cidade do Rio de Janeiro, porém, meus olhos eram de Lígia.
Enquanto ela, sorridente e faceira, mirava a paisagem, eu a lambia com os olhos. Tinha o rosto lindo, cada detalhe, cada pequeno detalhe daquela face era lapidado, milimetricamente acertado pelo criador. Aos meus olhos, Lígia era superior aos traços de Vênus ou Afrodite.
Meus hormônios me coagiam, me incitavam ao ataque. Lembro que pus a mão delicadamente em seu ombro, ela olhou para mim, ajeitando a franja que descia pelo seu rosto. Eu sorri. Mirei seus lábios.
“Tinha esquecido o quanto te acho linda.”
“Ah, Císio, para com isso. Vai me deixar sem graça.” Ela já estava. O rosto coradinho.
“Por que nunca ficamos? Sei que essa vontade não é unilateral.”
“Você era noivo, ía casar. E eu já cansei de me arriscar e acabar quebrando a cara.”
“Agora eu estou solteiro.”
“Por que não me procurou antes?”
“Alimentei por tantos meses esse sentimento que ele esmaeceu, acabei achando uma gaveta em meu interior para guardá-lo. De vez em quando eu o tirava de lá e o examinava.”
“Quando foi a última vez que fez isso?”
“Há alguns segundos.”
“E?”
Eu, já quase para jogar-me sobre ela: “Acho que não cabe mais na gaveta.”
Ficamos alguns segundos olhando um para o outro. Aproximei meu rosto do dela e ali, tendo a cidade do Rio como testemunha, fiz várias carícias com meu nariz e boca, nos seus olhos, nas bochechas, na fronte, inebriado, bêbado dela. Vertiginosamente, li o riso em seus lábios com a minha boca. Há tempos que tamanha embriaguez não me consumia. Que coisa mais bela de se sentir!
“Você é poesia, Lígia.”
“Então, me recita. Agora.”
Num movimento inesperado, belo, ela tira a blusa. Tive uma espécie de iminência de síncope ao ver, tão de perto, os mamilos lindos. Depois foi a calça. E a calcinha. E finalmente a nudez total, antes desconhecida, presente apenas em confabulações diversas de meu imaginário, agora oferecia-se gratuitamente ao meu universo real. Epifania...
Aproximei-me, já nu, e resolvi ficar ali, bem de perto, um olhando pro outro, dando azo àquele frenesi do prelúdio sexual, numa tentativa tântrica de prolongar ao máximo aquele prazer inefável.
Lígia, fatalmente, era um soneto parnasiano, sem nenhum desvio de rima ou de métrica. Era a perfeição poética em sua mais pura forma.
Taquicárdico, aproximei-me dos seus seios e, bem próximo, envolto pela curiosidade que me consumia de sentir aquele gosto...
“Vamos tomar café!”
Afastei-me, com uma expressão de que não havia compreendido. Olhei para ela e novamente:
“Amor!”
E acordei. Não era Lígia, era Renata, minha esposa, trazendo-me o café da manhã na cama.
“Preguiçoso. O sábado tá lindo e você aí dormindo.”, disse, beijando-me o rosto.
Tomei o café escutando seus planos para o nosso sábado. Depois foi tomar banho. Levantei e caminhei até a janela do quarto. Na Av. Epitácio Pessoa alguns caminhavam, outros corriam, carros passando. Baixei a cabeça, lasso, conformado com a ideia de que a poesia de Lígia estava sendo lida, naquele exato momento, em algum lugar da cidade do Rio de Janeiro. 

Aquele Beijo

A música entoava o mais belo gole de minha cerveja

Era tu, Leila, a dançarina permeando meu horizonte.


Não era seco, não era árido, gosto quase indizível

Teu em meus lábios.

Lancinante, astros, em doses de saliva 

Nos traduzíamos.

Língua fremente, hálito cálido, calando meu ego, tua voz,

Teu gozo rápido.

Libido desfigurada num só ato.


Sexo labial.


Teu beijo, Leila, memorável!

Ilógicos


O resultado de minhas equações, hoje, são inexatos.
Perdi a capacidade de achar soluções.
Meus teoremas são inválidos.
Meu “dois mais dois” não é igual a “quatro”
 e minha figura geométrica não é mais o quadrado.

Vieste durante a resolução de um problema e criaste outro.
Surgiu-me nova incógnita,
fiquei em alvoroço.

Como achar números se agora tudo me é ilógico?
Como ser inteiro se agora estou dividido?

Não multiplico e nem subtraio.
Somo dúvidas e dividendos. Extraio
da raiz do meu peito número irracional.
Meu cálculo é ineficaz, pobre, banal.
Somente rascunhos vis de um ser desordenado.

Foste além do meu limite e anulaste meu determinante.
Derivaste em minha mente um polinômio de números primos.
Que eu teimo em fazer pares.
Por sermos ímpares, um ao outro, sem báskara, sem matriz.
 Somente esses sinais que nos atraem
 nos tiram do conjunto e nos põe em desacordo.

Contra toda lógica, todas fórmulas, todas réplicas e súplicas.
 Somos ímpares. Somos dízima periódica.

Tentei analisar-nos em combinatória
porém nem a permutação restou-nos nessa vida de cálculos.
Pois que a vida, na matemática de nossa natureza humana,
nos cria essas Probabilidades de combinação desordenadas.

Resta-me tua geometria analítica ou plana.
Ainda a espacial, distância entre dois pontos,
 Função exponencial.
 E, ainda assim, não chego ao nosso final!
Então, solto meu lápis, meus rascunhos, todos os fatores que permuto
e flutuo...pairo...
... como a te contemplar nas resultantes de meu charuto.  

terça-feira, março 27, 2012

Borboletas a Flutuar

Hoje o amanhecer foi sombrio e eu senti frio
Sozinho no quarto quis te abraçar em meio ao vento.
Abraço apertado, igual aqueles de uma manhã de domingo
Mas não te achei, te abracei somente em pensamento.


Rememorei, num sorriso triste, o som da tua risada
Nossos momentos de piadas, estórias diversas e presepadas.
Apertou-me o peito sentir o teu perfume,
o som da tua voz amiga ecoando em meus ouvidos.


Eu, insensato e atordoado, mirava o nada feito louco, alucinado.
Estilhaços de minha alma, que tentava coletar, 
juntar, colar para essa vida prosseguir.
Fortalecer meus passos, voltar a caminhar e dar orgulho para ti.


Perdoa minha ausência enquanto estavas aqui.
Foste ídolo, foste exemplo 
Bondade maior eu nunca vi.


Meu irmão, meu amigo, a paz é tua companheira.
De mim fica o amor mais puro e a fidelidade, com certeza.
E, contemplando nossas memórias, um olhar infantil 
de alegria ao lembrar que, na tua companhia,
fomos heróis, fomos borboletas a flutuar...

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Senhora de Engenho

De todos os conflitos que vivi
Tu foste, em uma complexa concomitância,
O que mais doeu, o que mais me fez sorrir.

Respirei mil essências vis em sonhos
Traguei doces fumaças em confabulações diversas
E, ao acordar, me vi sozinho
no vazio do meu espelho.

De que vale ser Rei de impérios utópicos?
Ser Senhor de Feudos vários sem coroa?

Nada. Nada é aprazível nessa metafísica constante de minha cabeça.
Pois te digo, minha majestosa princesa, rainha de minha mente,
Senhora de todos meus pensamentos latifundiários:
Por um simples sopro,eu trocaria todos os meus reinados.
Um leve suspiro em teus mamilos cálidos.
Vassalo teu, escravo
a saborear o mais puro leite de tua pele pálida.

E poder ser Rei... Rei!
Rei dos mais desconhecidos Impérios da Eternidade!

domingo, janeiro 08, 2012

Riso Febril

Tantos mundos! Tantos sonhos!
Tantos portos eu visitei te navegando.
Procurando desvendar teu universo.
E sempre me faltou o palpável.
Sempre foi pouco e eu miserável.

A escravizar-me em imagens tantas, encontro-me em labirintos infinitos,
incessantes...

Pode ser que um dia a brisa venha
O amanhã floresça em meu peito ardente.
Como a acariciar meus palpitantes pensamentos
Traduzir, em ventos, o indecifrável do teu mistério
Que me tenta, prende-me a um devaneio imenso.

Dá-me febre! Dá-me febre!
Ardor incontrolável
Fluente em meu olhar
Tempestade em minhas mãos
que escrevem ondas e maremotos
como a traduzir teu sopro leve
aos meus ouvidos.

Ainda busco a sanidade. Interrogo-me!
No afã de encontrar uma resposta, uma solução.
Mas é em vão. Minha busca é falha.
Teu misticismo não permite racionalidade, uma lógica comum.

Permaneço febril e, ainda assim, enalteço-me com tua presença.
Como a criança que, mesmo doente, sorri... alegre.

domingo, dezembro 11, 2011

Desconheço

Chego ao pé do morro de minhas conclusões indefinidas e contemplo,
Por um simples instante, todos os equívocos que conquistei.
Todas as idéias falhas a que sucumbi.
Questionamentos tantos e a lógica esvai-se de minha razão.
Em outro tempo poderia ter sido o que enxergo interiormente.
Ou não.

Dói todo esse dia de contemplação. Admiro, ainda, meus pensamentos
Mesmo nos erros eles ainda persistem, alunos de toda essa matemática
Sem fundamento que é a vida.

Miro, ao alto, o topo do morro. A chegada.
Desconhecendo os percalços da escalada, as adversidades que enfrentaria.
Por um instante, meu, reflexivo, confabulo várias trajetórias e fins.

Baixo os olhos, viro e reconheço as pegadas e até onde cheguei.
Meu ser, mais resistente, triunfa na abstração do porvir e logo depois cala.
Inspiro, exaustivamente, um novo ar. Quase que pesado, dou o primeiro passo.

O que me espera lá no alto? Desconheço...
Quem serei eu lá no alto? Desconheço...

Conto apenas com essa sensação de novidade
E a certeza de que o mais importante será a trajetória que hei de percorrer.
E que, lindamente... desconheço.

domingo, agosto 21, 2011

Escuro Iluminado


Meus selos cotidianos esmaecem com o passar das horas.
Perdi a nutrição de minhas células incautas que, com os anos, desgastaram-se, extinguiram-se
Sofri a perda de todas as lágrimas mundanas. Sou mais hoje do que o menos que serei.
Procuro-me em transações infinitas de minha metafísica freqüente.
Ressona em meus ouvidos um delírio inconseqüente. Fui outrora vil e desordenado. Hoje espalmo em um seio emagrecido, desvanecido.
Grito para ouvir ecos desse abismo sombrio que me executa. Surdo, surdo, surdo...
Quebro minha cabeça, quebro minha fachada. Quero o resgate, mais nada!
Engasgo palavras, o idioma universal das sensações entala em minha garganta áspera.
Minhas mãos colhem as reticências que escorrem pelos dedos, pelas fenestras, pelos buracos do meu ser desgovernado.
Não perco, não acho, sou apenas eu sem nenhum recado a dar...
O que restará dessas essências vazias que reverberam como uma orquestra vazia em um teatro?
Somente a vida que exaspera,  me remete ao fundo, a um escuro iluminado.