sábado, outubro 13, 2012


Hoje eu trouxe teu sorriso comigo
Era sol de domingo e precisava de um abrigo
Desses que chamamos de lar, às vezes,
Um lugar familiar.

Busquei-o em um lugar antigo. 
Rememorei bastante, e com pesar, momentos
Das músicas de outrora e compreendi
O mistério dos sentimentos.

Interroguei-me, pensativo, todos acontecimentos
E logo parei, calei. Algumas lembranças merecem
Somente a contemplação, observar, admirar...

Hoje foi um dia comum, eu precisava te morar.
Morei na tua lembrança mais presente que tive.
Doçura tua me abraça, me acalenta, 
embala-me nesse momento.
E eu, anestesiado, reflito sutilmente 
O teu sorriso, que hoje eu trouxe comigo.

Passeio


Quantos portos ainda hei de visitar?
Minha mente sempre levando-me a navegar.
Tantos mares e continentes.
Maiores e diversos que todos os existentes.



Imaginário de poeta, vulgo louco.
Apenas sorrio, inebriado, enquanto meus olhos,
cálidos, escondem tantas maravilhas,
tempestades, brisas e paisagens fantásticas.

Hoje o dia é meu, as ruas são minhas,
abraço todas, beijo ventanias.
Faço do impossível o real.
Flutuo, pairo sobre o luar que acaricia minha pele.

E, nesse passeio, sou todo o mundo,
sou inteiro. Metades surreais que compreendo
até quando ouço apenas ventos.
Tudo é lindo! E o mundo, um catavento.
A vida que segue e que se vive
Cheia de mistérios e segredos
Prediz abismos e degredos
Ou enaltece os sonhos que outrora tive.

Nem sempre vivo o que esclareço
Mas quero sempre o que bendiz
Segredos, devaneios ou mistérios
Nunca soube, só vivi.

domingo, junho 17, 2012

Mágicas

Quem poderá palavrear a magia que emana das mulheres que cruzam meu caminho?
Paixões diversas, lutos passageiros, amores repentinos.
Elas cruzam meu caminho e palpitam meu ser em pequenos desatinos.


Às vezes, é só um sorriso que me fascina e me embala em delírios vãos.
Outras, é a música dos cabelos, dos movimentos, das curvas tácitas sob as roupas desataviadas.
Vezes há que a poesia me é tão intensa que, feito louco, sou levado a flutuar em grandes devaneios de minha mente libidinosa.


Um riso que eu possa beijar.
Uma voz suave, macia aos meus ouvidos. Aroma dos olhos. Tato das coxas. 
Apenas o observar de um mágico caminhar.
E cantar meus versos nesses detalhes voluptuosos a hipnotizarem meu desorganizado raciocínio.


Alucinado, sem siso, saboreio mil mulheres em meus pensamentos perdidos:
A modelo de cabelos.
A modelo de pés.
A modelo de olhar atrás dos óculos.
A modelo de sorriso com buraquinho na bochecha.


São tantas! E tão diferentes, que vontade imensa me domina e navego em projeções várias
Gozos infinitos, somente com meu lúbrico imaginário.


E guardo na memória o gosto indizível dos lábios, do sexo e do amor... eternos e momentâneos...
... das mulheres que cruzam o meu caminho. 

quarta-feira, junho 06, 2012

Trilha de Lígia


“Ôooii!!!”, disse-me ela, cutucando-me pelas costas.
Estava a contemplar o sol matinal infiltrado nas folhas das árvores que adornam o parque laje quando fui surpreendido por Lígia.
“Lígia! Que surpresa boa!”
“  Acabei de chegar. Tava procurando por uma mesa quando te avistei, de longe. Nem acreditei! Você não é muito de vir tomar café aqui.”
“ Bom, tenho tentado inserir hábitos mais saudáveis na minha rotina. Aquela vida de notívago estava me destruindo. E, veja só, no meu primeiro domingo aqui no parque e já te encontrei. Vamos tomar café juntos? Ou tá acompanhada?”
“Não, não. Vim sozinha mesmo. Convidei uma amiga mas ela não quis. Graças a Deus te encontrei. Odeio comer sozinha!”, disse ela, sorrindo lindamente.
Lígia tinha sido minha colega de turma em um curso intensivo de espanhol que acabara há 4 meses. Em nossa primeira conversa concluí que minha amizade com ela seria algo perigoso para nós dois. A sintonia tanto intelectual quanto física era inevitável, magnética, uma das melhores sensações que já senti com uma mulher.  Puxei a cadeira para ela sentar. Durante o ato pude contemplar, disfarçadamente, o corpo de Lígia movendo-se, vestido com aquela roupa que as mulheres costumam usar para praticar atividades físicas. Linda, linda.
“Saudade, sabia?”, disse eu, com uma carícia em seu ombro.
“Ah, Tarcísio, você sumiu. Não sai mais com o pessoal. Eu, quando não to atarefada, procuro sempre ir.”
Pessoal, que ela se referia, era uns colegas nossos. Turma que formamos durante o curso. No início eu gostava de sair com eles, noites boêmias de conversas inúteis e assuntos superficiais. Minha motivação maior era saber que Lígia estaria presente.
“Tenho estado meio enrolado no trabalho ultimamente, além do mais, venho refletindo muito sobre minha vida. Mas isso não vem ao caso. O que você acha de fazermos a trilha?”
“Vim justamente pronta para isso!”, disse ela, animada.
Durante a caminhada, deixo Lígia ir na minha frente com a desculpa de que eu não conhecia bem o caminho. Doce mentira. Enquanto ela subia a trilha, eu, com um sorriso cínico, ia contemplando as nuances de seus movimentos. As gotas de suor que escorriam poeticamente pelo seu rosto, depois pelo pescoço, chegando por dentro da blusa decotada até os seios, que eu já imaginara diversas vezes em minha mente  devassa numa tentativa de obter respostas daquele, ainda, desconhecido mundo. Mamilos rosados? Cor da pele? Aureola grande ou pequena? Redondos ou elípticos? Qual o tamanho exato? Será que caberiam inteiros na minha boca? E as nádegas? Duas metades de uma perfeição complexa. Pareciam dançar para mim, me chamando: “Tarcísio, vem cá, estamos precisando de carinho. Vem nos beijar. Dá-nos mordidinhas!”. Flutuava nesses devaneios quando chegamos ao topo do mirante. De lá dava para admirar uma boa parte da cidade do Rio de Janeiro, porém, meus olhos eram de Lígia.
Enquanto ela, sorridente e faceira, mirava a paisagem, eu a lambia com os olhos. Tinha o rosto lindo, cada detalhe, cada pequeno detalhe daquela face era lapidado, milimetricamente acertado pelo criador. Aos meus olhos, Lígia era superior aos traços de Vênus ou Afrodite.
Meus hormônios me coagiam, me incitavam ao ataque. Lembro que pus a mão delicadamente em seu ombro, ela olhou para mim, ajeitando a franja que descia pelo seu rosto. Eu sorri. Mirei seus lábios.
“Tinha esquecido o quanto te acho linda.”
“Ah, Císio, para com isso. Vai me deixar sem graça.” Ela já estava. O rosto coradinho.
“Por que nunca ficamos? Sei que essa vontade não é unilateral.”
“Você era noivo, ía casar. E eu já cansei de me arriscar e acabar quebrando a cara.”
“Agora eu estou solteiro.”
“Por que não me procurou antes?”
“Alimentei por tantos meses esse sentimento que ele esmaeceu, acabei achando uma gaveta em meu interior para guardá-lo. De vez em quando eu o tirava de lá e o examinava.”
“Quando foi a última vez que fez isso?”
“Há alguns segundos.”
“E?”
Eu, já quase para jogar-me sobre ela: “Acho que não cabe mais na gaveta.”
Ficamos alguns segundos olhando um para o outro. Aproximei meu rosto do dela e ali, tendo a cidade do Rio como testemunha, fiz várias carícias com meu nariz e boca, nos seus olhos, nas bochechas, na fronte, inebriado, bêbado dela. Vertiginosamente, li o riso em seus lábios com a minha boca. Há tempos que tamanha embriaguez não me consumia. Que coisa mais bela de se sentir!
“Você é poesia, Lígia.”
“Então, me recita. Agora.”
Num movimento inesperado, belo, ela tira a blusa. Tive uma espécie de iminência de síncope ao ver, tão de perto, os mamilos lindos. Depois foi a calça. E a calcinha. E finalmente a nudez total, antes desconhecida, presente apenas em confabulações diversas de meu imaginário, agora oferecia-se gratuitamente ao meu universo real. Epifania...
Aproximei-me, já nu, e resolvi ficar ali, bem de perto, um olhando pro outro, dando azo àquele frenesi do prelúdio sexual, numa tentativa tântrica de prolongar ao máximo aquele prazer inefável.
Lígia, fatalmente, era um soneto parnasiano, sem nenhum desvio de rima ou de métrica. Era a perfeição poética em sua mais pura forma.
Taquicárdico, aproximei-me dos seus seios e, bem próximo, envolto pela curiosidade que me consumia de sentir aquele gosto...
“Vamos tomar café!”
Afastei-me, com uma expressão de que não havia compreendido. Olhei para ela e novamente:
“Amor!”
E acordei. Não era Lígia, era Renata, minha esposa, trazendo-me o café da manhã na cama.
“Preguiçoso. O sábado tá lindo e você aí dormindo.”, disse, beijando-me o rosto.
Tomei o café escutando seus planos para o nosso sábado. Depois foi tomar banho. Levantei e caminhei até a janela do quarto. Na Av. Epitácio Pessoa alguns caminhavam, outros corriam, carros passando. Baixei a cabeça, lasso, conformado com a ideia de que a poesia de Lígia estava sendo lida, naquele exato momento, em algum lugar da cidade do Rio de Janeiro. 

Aquele Beijo

A música entoava o mais belo gole de minha cerveja

Era tu, Leila, a dançarina permeando meu horizonte.


Não era seco, não era árido, gosto quase indizível

Teu em meus lábios.

Lancinante, astros, em doses de saliva 

Nos traduzíamos.

Língua fremente, hálito cálido, calando meu ego, tua voz,

Teu gozo rápido.

Libido desfigurada num só ato.


Sexo labial.


Teu beijo, Leila, memorável!

Ilógicos


O resultado de minhas equações, hoje, são inexatos.
Perdi a capacidade de achar soluções.
Meus teoremas são inválidos.
Meu “dois mais dois” não é igual a “quatro”
 e minha figura geométrica não é mais o quadrado.

Vieste durante a resolução de um problema e criaste outro.
Surgiu-me nova incógnita,
fiquei em alvoroço.

Como achar números se agora tudo me é ilógico?
Como ser inteiro se agora estou dividido?

Não multiplico e nem subtraio.
Somo dúvidas e dividendos. Extraio
da raiz do meu peito número irracional.
Meu cálculo é ineficaz, pobre, banal.
Somente rascunhos vis de um ser desordenado.

Foste além do meu limite e anulaste meu determinante.
Derivaste em minha mente um polinômio de números primos.
Que eu teimo em fazer pares.
Por sermos ímpares, um ao outro, sem báskara, sem matriz.
 Somente esses sinais que nos atraem
 nos tiram do conjunto e nos põe em desacordo.

Contra toda lógica, todas fórmulas, todas réplicas e súplicas.
 Somos ímpares. Somos dízima periódica.

Tentei analisar-nos em combinatória
porém nem a permutação restou-nos nessa vida de cálculos.
Pois que a vida, na matemática de nossa natureza humana,
nos cria essas Probabilidades de combinação desordenadas.

Resta-me tua geometria analítica ou plana.
Ainda a espacial, distância entre dois pontos,
 Função exponencial.
 E, ainda assim, não chego ao nosso final!
Então, solto meu lápis, meus rascunhos, todos os fatores que permuto
e flutuo...pairo...
... como a te contemplar nas resultantes de meu charuto.  

terça-feira, março 27, 2012

Borboletas a Flutuar

Hoje o amanhecer foi sombrio e eu senti frio
Sozinho no quarto quis te abraçar em meio ao vento.
Abraço apertado, igual aqueles de uma manhã de domingo
Mas não te achei, te abracei somente em pensamento.


Rememorei, num sorriso triste, o som da tua risada
Nossos momentos de piadas, estórias diversas e presepadas.
Apertou-me o peito sentir o teu perfume,
o som da tua voz amiga ecoando em meus ouvidos.


Eu, insensato e atordoado, mirava o nada feito louco, alucinado.
Estilhaços de minha alma, que tentava coletar, 
juntar, colar para essa vida prosseguir.
Fortalecer meus passos, voltar a caminhar e dar orgulho para ti.


Perdoa minha ausência enquanto estavas aqui.
Foste ídolo, foste exemplo 
Bondade maior eu nunca vi.


Meu irmão, meu amigo, a paz é tua companheira.
De mim fica o amor mais puro e a fidelidade, com certeza.
E, contemplando nossas memórias, um olhar infantil 
de alegria ao lembrar que, na tua companhia,
fomos heróis, fomos borboletas a flutuar...

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Senhora de Engenho

De todos os conflitos que vivi
Tu foste, em uma complexa concomitância,
O que mais doeu, o que mais me fez sorrir.

Respirei mil essências vis em sonhos
Traguei doces fumaças em confabulações diversas
E, ao acordar, me vi sozinho
no vazio do meu espelho.

De que vale ser Rei de impérios utópicos?
Ser Senhor de Feudos vários sem coroa?

Nada. Nada é aprazível nessa metafísica constante de minha cabeça.
Pois te digo, minha majestosa princesa, rainha de minha mente,
Senhora de todos meus pensamentos latifundiários:
Por um simples sopro,eu trocaria todos os meus reinados.
Um leve suspiro em teus mamilos cálidos.
Vassalo teu, escravo
a saborear o mais puro leite de tua pele pálida.

E poder ser Rei... Rei!
Rei dos mais desconhecidos Impérios da Eternidade!

domingo, janeiro 08, 2012

Riso Febril

Tantos mundos! Tantos sonhos!
Tantos portos eu visitei te navegando.
Procurando desvendar teu universo.
E sempre me faltou o palpável.
Sempre foi pouco e eu miserável.

A escravizar-me em imagens tantas, encontro-me em labirintos infinitos,
incessantes...

Pode ser que um dia a brisa venha
O amanhã floresça em meu peito ardente.
Como a acariciar meus palpitantes pensamentos
Traduzir, em ventos, o indecifrável do teu mistério
Que me tenta, prende-me a um devaneio imenso.

Dá-me febre! Dá-me febre!
Ardor incontrolável
Fluente em meu olhar
Tempestade em minhas mãos
que escrevem ondas e maremotos
como a traduzir teu sopro leve
aos meus ouvidos.

Ainda busco a sanidade. Interrogo-me!
No afã de encontrar uma resposta, uma solução.
Mas é em vão. Minha busca é falha.
Teu misticismo não permite racionalidade, uma lógica comum.

Permaneço febril e, ainda assim, enalteço-me com tua presença.
Como a criança que, mesmo doente, sorri... alegre.

domingo, dezembro 11, 2011

Desconheço

Chego ao pé do morro de minhas conclusões indefinidas e contemplo,
Por um simples instante, todos os equívocos que conquistei.
Todas as idéias falhas a que sucumbi.
Questionamentos tantos e a lógica esvai-se de minha razão.
Em outro tempo poderia ter sido o que enxergo interiormente.
Ou não.

Dói todo esse dia de contemplação. Admiro, ainda, meus pensamentos
Mesmo nos erros eles ainda persistem, alunos de toda essa matemática
Sem fundamento que é a vida.

Miro, ao alto, o topo do morro. A chegada.
Desconhecendo os percalços da escalada, as adversidades que enfrentaria.
Por um instante, meu, reflexivo, confabulo várias trajetórias e fins.

Baixo os olhos, viro e reconheço as pegadas e até onde cheguei.
Meu ser, mais resistente, triunfa na abstração do porvir e logo depois cala.
Inspiro, exaustivamente, um novo ar. Quase que pesado, dou o primeiro passo.

O que me espera lá no alto? Desconheço...
Quem serei eu lá no alto? Desconheço...

Conto apenas com essa sensação de novidade
E a certeza de que o mais importante será a trajetória que hei de percorrer.
E que, lindamente... desconheço.

domingo, agosto 21, 2011

Escuro Iluminado


Meus selos cotidianos esmaecem com o passar das horas.
Perdi a nutrição de minhas células incautas que, com os anos, desgastaram-se, extinguiram-se
Sofri a perda de todas as lágrimas mundanas. Sou mais hoje do que o menos que serei.
Procuro-me em transações infinitas de minha metafísica freqüente.
Ressona em meus ouvidos um delírio inconseqüente. Fui outrora vil e desordenado. Hoje espalmo em um seio emagrecido, desvanecido.
Grito para ouvir ecos desse abismo sombrio que me executa. Surdo, surdo, surdo...
Quebro minha cabeça, quebro minha fachada. Quero o resgate, mais nada!
Engasgo palavras, o idioma universal das sensações entala em minha garganta áspera.
Minhas mãos colhem as reticências que escorrem pelos dedos, pelas fenestras, pelos buracos do meu ser desgovernado.
Não perco, não acho, sou apenas eu sem nenhum recado a dar...
O que restará dessas essências vazias que reverberam como uma orquestra vazia em um teatro?
Somente a vida que exaspera,  me remete ao fundo, a um escuro iluminado.

domingo, junho 19, 2011

Luzes do Entardecer

Mar e sol. Sol e Mar.
Reflete em meu peito teu iluminar.
Beija meu sorriso num breve silêncio. Anda Luz.
Caminha no meu ser e me seduz.

Céu e Lua. Lua e Céu.
Leva meus barcos de papel.
Segura a minha mão, como criança.
Mostra-me o infinito de tua andança.

Dia e Noite. Noite e dia.
Dedilha em meu rosto tua música e poesia.
Desenha teus astros em meu olhar.
Curva, desatino, me deixa flutuar.

Em tua Lua linda, eu sou teu Céu.
Na noite escura eu sou teu Sol.
De Dia calmo, eu sou teu Mar.
Iluminando, refletindo, sereno em te amar.

sábado, fevereiro 05, 2011

Previsões do Passado

Madrugada serena e me encontro fechado, pensando passado, saudoso, insensato.

Certo seria apagar o que minha mente tenta executar, parar de recordar.

O que uma vez existiu e nada mais espera, que ainda revoga somente o outrora.

Ataco-me em transcedências vis de minhas lembranças inúteis.

Pois nada há de reviver nem muito menos recriar! O momento no qual revive minha mente reconstrói-se em ilusões.

Agora hei de viver o presente. Carpe diem ad infinitum! Sugar o que meu ser pressente. Reinventar-me em sensações.

Não que o passado seja maldito ou nem mesmo valha a pena rememorar, já que fui seu aluno, seu aprendiz.

Somente a lição ecoa em meus ouvidos loucos: “Vai e te molha nessa desordem da vida, nessa harmonia desorganizada de teu ser. Não espera. Não cogita. Muito menos presume. Pula, surta, pica a mula! Tudo te espera em um sorriso...com doçura...”

quinta-feira, novembro 18, 2010

Teu Segredo

Eu te peço perdão por tentar em vão, há muito, descobrir o teu segredo.

Esse segredo que a minha libido alimenta. Um frenesi clandestino. Um ardor de pimenta.

Não sei se é o teu cheiro, tua pele, teu olhar...que me desassossega, me queima, me faz rastejar.

 Como um cachorro abandonado, atrás de ti, a me humilhar. Comendo teus passos, me enroscando em teu corpo, em tua sombra, na poeira de teus sapatos.

Eu te mordo no ar e mastigo teu gesto.

Bebo teu leite por entre tuas coxas, fervente, lindo a esguichar; me borbulho no ato, derreto em teu corpo.

Irracional, sem juízo, eu sou escravo. Esfrego-me em tuas nádegas, deslizo em teus seios.

Nos bebo na volúpia que de ti evapora e me entorpeço.

Eu me choro, navego meu tato em tuas curvas inquietas, em teus segredos.

 Perco-me em tua nuca, no teu lábio, em teu queixo.

Acho-me em tuas nuances, nas tuas pernas abertas, no tremor de teus cabelos.

Eu sou todo desejo, faceiro. Exalo em ti a devassidão de um alucinado.

Envolvido em tua luxúria, engasgado de tesão a cada gole de minha cunilíngua perfeita.

Eu te suspendo, te amarro em meus braços, contenho teus espasmos. Desordenados de prazer nos somamos em um só ato. Sexo. Ternura. Cretinos. Libertinos.

Como água corrente, enchente, um vendaval, eu escoo voraz por dentro de ti.  

E teu clímax é silencioso, quase um suspiro, um soluço, sem alvoroço...atravessando poeticamente teu corpo, em cada movimento evasivo, cada gota de teu choro.

Feito um animal saciado, quieto...eu permaneço deitado, consumido, desgastado.
Acabado em ti. Encerrado em ti. Obra do teu poder. Teu segredo...executado.

domingo, novembro 14, 2010

A Razão de Ser

Passeio por entre mundos, confabulações e paradigmas.

Reflito. Ando só por entre os cantos de minh’alma inquieta.

Quem me entende? Quem me acompanha?!

Se a vida tem roteiro, se eu sou desordeiro. É o vento que eu abraço. É de divagações que eu cheiro.

Mas o caminho não é esse, eles dizem. A trajetória não é essa.

E eu só entendo da minha metafísica. Eu só enxergo cores e alegrias.

É o vento que me chama, essa brisa que me desassossega.

Que me faz querer plainar, querer saltar do ponto mais alto de minhas sensações e mergulhar fundo em várias emoções.

Eu me contenho, ainda, numa tentativa de me enquadrar. Mas sou sem quadro, sem quadrado. Minha visão é cósmica e meu ar transcendental.

E da transcendência eu me espalho na superfície e penetro pelos poros de minha vida frenética.

É nessa minha paixão pela vida tão vasta, tão curta em sua infinitude, que encontro a confusão que me mantém vivo.

Nessa sutileza desordenada que não cabe em mim, que emerge de mim, esguicha de minha pele tempestuosamente, sem controle
.
Faz-me procurar uma explicação, não é fácil ser sem razão!  

Apenas o tato intangível que me acalenta, pousa em meu ser e só a mim confessa, só a mim, sem dor nem vergonha, como a voz de uma criança que revela um segredo, bem baixinho, a me perguntar: Que explicação? Que razão?    

quinta-feira, setembro 16, 2010

Café da Manhã


               O barulho de "Madalena" na voz de Elis Regina ronronou em meus ouvidos, me despertando vagarosamente do sono profundo em que me encontrava. Sentei, esfreguei os olhos, bocejei. Ouvi ao fundo uma voz: "Amor, vem tomar café!". Entre alegre e surpreso, levantei e caminhei até a cozinha. Ela me esperava, linda na simplicidade de sua beleza, que se estabelecia perfeitamente em seu corpo voluptuoso vestido de uma simples camiseta e um calção solto, sem maquiagem nenhuma. Preparava um suco, eu cheguei e a abracei prazerosamente por trás. Um beijo suave no pescoço macio. Ela fechou os olhos, sorriu e curvou levemente a cabeça para o lado do beijo: "Sente lá pra tomarmos nosso café.".

               Tomamos o café da manhã e conversamos banalidades, rindo entre uma mordida e outra no pão, entre um gole e outro no suco. Que coisa boa! De repente, entre uma conversa e outra, no pequeno intervalo no qual o silêncio pairou no ar e apenas nossos olhos se entrecuzaram, ela sorveu o gole do suco no prelúdio do que estava por vir. Sorriu, faceiramente. Ergueu-se, recuou, em um ato ágil e sincrônico tirou a camiseta. Seus seios reluzentes levaram libido a meus olhos. Ela mirou-me como em um convite e uma espera. Agarrou o suco e, calculadamente, deixou o líquido escorrer por seu corpo desnudo. Ver aquela cena impregnada de volúpia quase que me leva a insanidade. O líquido escorria harmoniosamente pelas suas curvas convidativas. Ela retirou a peça de roupa que faltava e tudo se tornou uma poesia só. A líquido banhando o seu ventre que movimentava-se como num ato hipnótico. Eu, já sem muito juízo, agachei-me, engatinhei até suas pernas e as abracei famintamente, ajoelhado, feito um escravo, eu lambia cada mínima nuance daquela escultura que se estabelecia frente à minha visão, saboreando cada sutil estrutura, cada pedaço de sua pele, seus seios, saciando minha sede aos poucos. E quando já era impossível os atos coordenados eu levantei! Tomei-a em meus braços, puxei ferozmente a toalha da mesa, joguei-a por cima e, já perto de começarmos a dança mais primitiva já inventada...Acordei! Brincadeiras de minha mente lúdica...

domingo, julho 18, 2010

Brincadeiras da Memória

Eu hoje levantei da cama sonolento e desatento.
Procurei em mim com grande esforço o sustento, não te vi.
Senti, ainda, brincando com a minha memória, a suavidade de teu sorriso. E sorri.
Suspirei teus olhos num doce afago.
Lamentei, olhei de lado. 
Dói, é chato, querer teu tato e não poder. No meu espaço, estar sozinho e fenecer...
Procuro distrações, brincar com o tempo, mas eu me lasco.
Se fecho os olhos, é teu aroma que me vem, tua sintonia, o teu enlaço. 
Na tua pele navego meus dedos, cintilo meu beijo
em teu ventre cálido.
Querendo tua companhia. Bebendo esse nosso sentimento.
Sentimento nosso de ternura, que me faz dedilhar teu rosto
e palpitar o coração. 
Reconhecer em teu olhar, meu lar. Ouvir tuas palavras
e escutar nossos segredos
Acho em teus abraços a minha morada.
Me olhas e com esse olhar, conta-me coisas secretas.
Não temos muito mais neste mundo. É só ficar contigo, nada mais.
Só esse desejo de ficar perto, escutando os murmúrios de teu riso acalentando o meu peito inquieto.
É estar ao teu lado, simplesmente. Provar teus cabelos, ouvir
os teus braços enquanto, embaraçada, me contas banalidades.
Me fazendo confidências, dos teus segredos mais bonitos,
sem que ao menos saibas que é em teu corpo que os decifro.
E nesse navegar de minha memória, vivo a eternidade da espera do momento que anseio de contigo colecionar emoções com a doçura de uma criança que brinca de carrinho com a maestria de um sábio.

segunda-feira, julho 12, 2010

A Viagem de Gandhi

        “Atenção senhores passageiros do vôo 7534 para São Paulo, embarque imediato no portão 17”, dizia a voz da funcionária da companhia aérea. O som reverberava fraco nos ouvidos de Franco, que lia distraído a vitrine da livraria. Estava com o pensamento distante, vago, perdido nas lembranças de Aurora. Ah, doce Aurora! Com um sorriso discreto nos lábios, as mãos cruzadas para trás, saiu caminhando para o portão 17.

          “Boa noite, senhor.”, disse a comissária do vôo – cabelo preso “rabo de cavalo”, uniforme justo que deixava transparecer as nuances voluptuosas de seu corpo. Franco sorriu em resposta e teve um lapso de paixão.

          Atravessou o corredor da aeronave, alguns o olhavam, outros para a janela. 14 C, dizia o cartão de embarque. Sentou. Ao seu lado, um homem sisudo, nariz empinado, colarinho branco e pasta de couro. Verificava algo no celular. Franco o observa e sente um conformismo leve, como quem suspira por estar vendo algo familiar. E era isso. Franco tinha um desprezo saudável pelas pessoas comuns, trabalhadoras, envoltas nos convencionalismos da sociedade, como o próprio indivíduo vizinho seu de viagem.

         Disfarçando seu desprezo, Franco logo inicia uma conversa. O nome era Heitor. Heitor Andrade. Falava com voz firme e segura, com uma simpatia de praxe, disse que era vice-gerente de uma grande agência bancária. As palavras ressonavam garbosamente de sua boca, gesticulando como quem se auto-proclama suis generis. Franco demonstrava interesse e incentivava Heitor a continuar propalando suas qualidades. A dado momento, pede licença para ir ao banheiro. Heitor, em resposta:

               Disponha!, voltando a cutucar o aparelho telefônico entre interessado e farsante.

            Franco soergueu-se em um tédio triunfante e ainda deu uma olhadela para o início do corredor, à procura da comissária “Boa noite”. Foi ao banheiro.

             Durante a excreção urinária, olha-se no espelho, egoísta, bendizendo a si mesmo por ter consciência de ser somente mais um humano no mundo. Glorifica sua mente por reconhecer-se como comum. E todas suas sensações de indiferença para com os demais esvaíram-se de seu corpo junto com aquela urina concentrada.

             Olhou para o pênis comum, pensou em Aurora, como ainda conseguia sentir o cheiro de seu ventre, o tato de sua pele e de seus mamilos trêmulos. Que gemido suave que ela tinha! De súbito, no navegar de suas memórias, lhe vem uma ereção. Quando já havia encerrado a urina, recordar Aurora lhe despertou parte do corpo que até então jazia flácida em suas mãos. Pensou na comissária “Boa noite”, o “rabo de cavalo” comum, o uniforme escondendo e ao mesmo tempo revelando parte dos segredos daquele corpo. Sem uniforme. Calcinha comum. Seio comum, lindos! E o gemido. Aurora. Comissária. Aurora. Comissária. Um ménage à trois com Aurora e a Comissária.

            E, quando o sêmen estava para verter de seu órgão rígido, Franco, propositadamente, deixa o produto jorrar em suas mãos. Como que a ensaboá-las, ele as esfrega, uma na outra, até o líquido evaporar e restar apenas o vestígio áspero em seus dedos.

           Não mais em Aurora, nem na Comissária “Boa noite”, agora, em Heitor ele pensava. Volta ao acento. O vizinho de viagem descansava com os olhos cerrados. Franco sorri, num desvelo cínico, aguarda amortecido o pousar, a despedida. Que logo vem.

            Heitor: “Bom, Franco, foi um prazer. Agora tenho que ir. O motorista me aguarda. Tenho que organizar minha agenda do mês. Provavelmente serei promovido”, estendendo a mão, numa educação galharda, espera o retorno da despedida.

               Foi como se Franco se transformasse em um ícone. Veio-lhe a mente, àquela comum mente, fantasias marxianas, guevarias e até, se bem assim posso dizer, gandhianas. 

              Cumprimentando, a sacudir a mão de Heitor com a sua, ele sorveu toda a metafísica do mundo. Todos os delírios das grandes mentes eram seus. Com firmeza, sentindo sua mão cúmplice, conivente, a afagar com solidez a daquele executivo pedante, ele pôde se comprazer num protesto individual.

                Heitor caminhou inocente, comum em sua ignorância. E Franco, depois, já na porta da aeronave, a Comissária: “Boa noite, senhor!”. Ele estende a mesma mão, bandida, a ela. Agora, regozijar-se-ia novamente, por outro motivo, outro desatino...sentiu Aurora em seus lábios.

domingo, dezembro 06, 2009

Pintando Sabrina

“Esse é um dos melhores espumantes que já tomei.” Disse, ao se aproximar de mim, inclinando a taça em um prazeroso gole.

“ É da Alemanha. Muito bom, realmente.” Respondi, com certa indiferença.

Ela estende as mãos, com um sorriso ébrio nos lábios. “Meu nome é Sabrina.”

Seguro levemente, um beijo delicado, indecente entre seus dedos.

Sou apaixonado por cada detalhe de uma mulher bonita. Nunca enjoo. Cada mulher conhecida, é um livro a mais lido, vi isso em um filme. Sabrina não era diferente nesse sentido. Linda de emudecer um homem só por estar em sua presença. Observo os braços delicados, a pele alva como a espuma do champanhe.

“Henrique.”

“O centro das atenções desta noite. Aliás, parabéns! Dei uma volta pela galeria. Você pinta muito bem. Gostei do quadro dos esfarrapados transando.” E mais um gole na taça fina de cristal.

“É, alguns artistas levam a vida inteira para entender sua própria arte e morrem sem conseguir. Eu não faço nada disso. Minha arte é simplismente a extensão material da minha admiração inexorável pelo ato sexual entre um homem e uma mulher.”

Ela cala. Revisa meu corpo com os olhos, mais um gole na taça, quase vazia. A sombra da franja de seus cabelos pinta uma sensualidade peculiar no seu rosto. Ela dá meia volta e segue andando com a negligência fingida e costumeira das mulheres bonitas. Observo, esculpo mentalmente o seu corpo nu, naquele mesmo caminhar, e minha boca enche de saliva.

“Henrique, tava te procurando. Vamos, preciso te apresentar a uma pessoa muito importante.” Era minha marchand, Lívia. Agarrou-me pelo braço e me conduziu até um indivíduo gordo, de estatura média, desses ricos que adoram fingir que entendem alguma coisa de arte.

“Henrique, esse é o Sr. Victor Fattino, dono da rede bancária Fattino. Sr. Fattino, esse é o Henrique, o artista.”

O cumprimento de mãos de praxe.

“Gostei muito desse quadro, me deixou num desassossego.” Diz ele olhando para o mesmo quadro citado por Sabrina. “Não sei ao certo se minha análise está correta...” Continua falando. Sua voz vai silenciando em minha mente enquanto observo, ao longe, os movimentos de Sabrina pela galeria. Sugo o momento e, mentalmente, sincronizo aquela bela imagem com La Donna É Mobile da Ópera Rigoletto. Pairo sobre as plumas saltitantes de minha libido ardente. Volto o olhar para o gordo de estatura média e interrompo seu discurso.

“Se ao ver este quadro o senhor ficou desassossegado, minha arte cumpriu seu dever.”

“Ofereço R$30 mil.” Diz ele com expressão de superioridade.

Lívia olha para mim como a criança que aguarda a permissão do pai para sair do castigo.

“Este, infelizmente, não está à venda. Desculpe! Agora, se o senhor me dá licença...” E vou caminhando em direção à Sabrina, que permanece em uma das janelas, encarando o ar suspenso lá fora.

Lívia ainda vem atrás de mim, tentando me conter. Eu lanço o olhar que ela já conhece. Ela fica. Eu sigo. Pego uma das garrafas do espumante e me aproximo.

“Odeio os organismos da cúpula...” Falo com olhar também perdido na janela.

“Viva os orgasmos da cópula!” Ela responde. Um gole na taça. Um sorriso, enquanto o champanhe umedece em redor de seus lábios.

Ofereço, num movimento, mais bebida. Ela estende a taça e me encara.

“És somente mais um desses artistas pedantes?” Pergunta.

“O que você acha?” Dou um gole, no gargalo.

“Acho que sim.”

“Todos esses conceitos são muito relativos. Não penso se sou bom ou não no que faço. Eu vou lá e executo. Se faço com excelência, isso já é consequência da admiração dos outros.”

“Qual a tua paixão?”

“O sexo feminino.” Respondo com firmeza. Ela empina levemente o queixo.

“Por que voltaste aqui comigo?”

“Tua arte em minha cabeça.”

“Hum...seja mais claro.”

“Eu te pintei nua a noite inteira.”

Abre o sorriso. “Tô hospedada no La Vizzon, corbetura. Não me faz esperar muito.” Mais um gole, desdenhoso. “Leva tinta e o quadro dos esfarrapados.”

“O quadro é muito grande.”

“Leva.” Deixa a taça na minha mão e vai embora. E na minha cabeça, a voz de Pavarotti ressona:
“La donna è mobil
qual piuma al vento
muta d'accento
e di pensier
e di pensier
e di pensier”

Fico algum tempo ainda degustando a boca de Sabrina nos goles do meu champanhe, no gargalo. Observo as pessoas na galeria, a maioria podre de rico. A Lívia adora minhas vernissages, interagir com toda aquela gente. Podres de rico! Bando de hipócrita, burros, não entendem porra nenhuma de porra nenhuma.

“Lívia, tenho que ir. Vou levar um dos quadros. Não me pergunta por quê. Vende os outros, quanto quiserem pagar.”

“Tá certo. Depois te passo o saldo final de tudo.” Disse ela, me bejiando no rosto.

Lívia não questionava meus pedidos. Eu pintava bem e ela ganhava, por minha causa, muito dinheiro. Não tinha do que reclamar.

Peguei o quadro e fui para o estacionamento. Porra de quadro grande! Tive que pegar uma das vans. Passei em casa para pegar as tintas e segui para o La Vizzon. Sabia que era um dos melhores hotéis da cidade, somente os da cúpula se hospedavam lá. Podres de rico!

Parei a van em frente a entrada do hotel, peguei o quadro e dei a chave para o manobrista. Outro funcionário me ajudou com as tintas. No balcão, o atendente disse que Sabrina já tinha deixado o recado. Subi para a cobertura.

Era uma puta de uma cobertura! Sabrina vem sorridente, envolta apenas em um roupão de seda. Depois que o funcionário deixou minhas coisas e foi embora, ela fecha a porta.

“Tira tua roupa” Ela diz.

Enquanto me dispo, ela contempla o quadro. Quando termino, ela caminha o olhar pelo meu corpo, chega perto, desliza a taça de champanhe pelo meu tórax, desce no abdome e, com cinismo: “Lá fora. Traz as coisas.”

Como um cão adestrado, eu obedeço. Lá fora é uma vista estonteante. Uma piscina, um pátio imenso, outros adornos desnecessários aqui e a vista da cidade.

Ela toma o quadro das minhas mão e joga no chão. Desamarra o nó do roupão, que esvai do seu corpo com total harmonia. Suspiro, me vem uma ereção. Sabrina pega o champanhe e derrama sobre seu corpo desnudo. O líquido escoa junto com os meus pensamentos artísticos. Junto a ela, eu ajoelho, feito escravo. Bebo em seu corpo toda a volúpia do momento.

Ela se afasta, em direção às tintas. Enfia as mãos nos potes e se pinta. A passar as mãos coloridas pelo seu corpo alvo, ela torna seu sexo em arte. As palavras são desnecessárias, não falamos. Fico estático enquanto Sabrina locomove-se poeticamente no quadro da minha visão. E agora, já é Die Zauberflote Act II – Der Holle Rache que musicaliza minha pintura animada.

Vai ao quadro e reclina-se com luxúria. Deita e rola sobre ele. O olhar convidativo, eu me somo a ela. E, ali, num ato sexual prismático, desfiguramos totalmente a imagem que ainda restava fosca na tela.

Com a proficiência de um maestro, eu arpejo a orquestra lancinante de Sabrina e seus gemidos seguem o arco-íris desenhado pela minha batuta destemida. Eu sou Tenor, ela, minha Diva.

A sinfonia continua. Pincelados sobre aquele quadro, nossos corpos tornam-se uma aquarela de lascívia. E, quando eu já estava a vislumbrar o ato final da minha Ópera mental, Sabrina, suavemente, enlanguesce em um gozo sincrômico.

Um ao lado do outro, nos encaramos, nos deleitamos em nossa pintura final.

“Não és somente mais um desses artistas pedantes.” Ela diz.

“Teu marido que é rico?”

“Não sou casada. Meu pai.”

“Odeio os organismos da cúpula...”

“Viva os orgasmos da cópula!”